quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Círculos, sonhos e medos

O que tenho feito?
Fico um tanto irritada quando me perguntam. A verdade é que detesto admitir, mas não tenho feito muita coisa. Entrei na rotina de novo, a boa e velha, e confortável, já que é necessária. Aliás, tenho feito o necessário: estudo, converso, dou umas risadas, como bem, danço um pouco, assisto uns filmes, passo tempo com a família e com os amigos. Tenho sete dias, praticamente pré-programados, para fazer tudo isso e, depois, repetir. E repetir. E repetir.
Eu provavelmente não teria nada a reclamar, e quem me assiste viver diria que estou muito bem, obrigada. Mas então, de onde vem essa sensação de estar andando em círculos? A minha impressão é que tudo que eu faço não chega nem perto de tudo que eu planejo, que eu sonho. Meu maior desespero é perceber que meus sonhos, por mais simples que sejam, estão lá longe no futuro. Longe porque, não importa se me refiro ao dia seguinte ou a dez anos depois, o futuro nunca existe.
E se o futuro não existe, tudo que eu tenho é o agora. Então desespero.
Porque, agora sei, vivo de expectativas. Tenho tudo de bom, mas não tudo o que eu quero. Vivo de esperar, de querer, e por enquanto não vi nada acontecer de verdade. Paciência? Terei, atenho-me à ela, mas não posso deixá-la dominar meus dias, viver de espera é poético mas não muito prático. Que adianta viver esperando e morrer paciente?
Temo perder tempo, está aí o dilema. A vida precisa de tempo pra acontecer, não é? Mas com o tempo ela também acaba.
Enfim, sempre me resta esperar, mas não de braços cruzados. Esperarei enquanto vivo o que está ao alcance, decidi agora ser feliz com o presente, e sim, antes que perguntem, ser feliz é em parte uma escolha. Talvez a sensação de andar em círculos nunca vá embora, talvez o medo de não chegar a lugar algum seja um estímulo para andarmos mais rápido. Espero que os trabalhos compensem, que os passeios agradem, que as pessoas fiquem. E, se um dia meus sonhos se realizarem, o próximo desafio será encontrar novos sonhos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

No fim de tarde

O que eu mais gosto do verão não é o sol quente bom pra pegar uma cor na pele, que fica escondida o resto do ano, nem os vestidinhos leves, nem a licença pra usar chinelo o tempo todo, nem as praias lotadas. Minha parte preferida dessa época são as tempestades de fim de tarde.
Hoje foi um dia típico, quente desde o nascer do Sol, abafadíssimo, com uns ventinhos de vez em quando só pra gente não morrer sufocado. Desanimador pra quem tem que trabalhar, o calor particularmente me dá um desânimo tão grande quanto a minha moleza. Verão pra mim tinha que ser feriado nacional: passou de 30 graus vai todo mundo pra casa ficar na frente do ventilador ou, os mais animados, pra praia ou piscina. E foi exatamente isso que fiz hoje o dia todo - graças a Deus estou de férias - com pausa apenas para o almoço e um filminho quando o sol estava forte demais. Dá-lhe protetor.
Como em todo dia típico de verão, depois das 4 e pouco o céu começou a fechar. Um ventinho mais gelado, umas nuvens mais escuras. Saí correndo da piscina, troquei de roupa, procurei um chinelo (só eu sempre perco os chinelos ou é normal?) e corri pra passear com o cachorro antes do pé d'água cair. Dando a volta na quadra, já senti um pingo na testa. Vi todos da rua se recolherem ao som dos trovões. Entrei em casa e meu cachorro já correu pra debaixo da cama. Então a chuva parou de ameaçar, e finalmente caiu.
Não sei exatamente o que me encanta nessas tempestades, mas talvez seja a nossa pequenez diante delas. Engraçado como sempre penso sobre o que deve ter acontecido pra deixar Zeus tão puto da vida a ponto de despencar o céu em cima de nós. Acho lindo o fato de uma tempestade ser a única coisa capaz de transformar o dia em noite, de apagar o brilho do Sol, de deixar as ruas, até das maiores cidades, desertas.
O céu ficou cada vez mais escuro, e os pingos mais grossos e violentos. O vento jogava-os para os lados, bagunçados, em toda direção. Os raios e trovões se multiplicavam. Tirei as roupas do varal com pressa, verifiquei todas as janelas, deliguei a TV da tomada. Fiz um leite batido com chocolate e sentei na varanda para aproveitar o espetáculo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Só ela

Difícil sair daquele estado, físico, de espírito, in ou consciente, no qual muito se desejava e pouco se conseguia fazer. Preguiça justificada pelo desânimo justificado por ah-esses-dias-tão-limbosos. Mas lua após lua, foi escondendo em algum canto esse pesar que foi perdendo peso, ou pelo menos foco, ficou mais desimportante que o resto. Nas horas mais críticas ainda voltava e martelava o estômago, gritando "tem algo errado contigo, tem algo errado contigo". Aprendeu a mandá-lo calar a boca.
Sim, havia várias coisas erradas com ela. Sentia, só ela, ninguém mais, que havia coisas erradas. Que as pessoas mentiam demais sobre coisas pequenas demais, que as relações eram mais frágeis e mais superficiais ainda do que a felicidade estampada nos outdoors. Era uma falta imensa de espontaneidade, era muita reclamação pra tanta acomodação. Era muita maquiagem e pouco pé no chão. Era exaustivo.
Mas é, ela aprendeu a mandá-lo calar a boca porque ficar ouvindo remoendo lamentando também é acomodar. Ouviu de uma vez por todas, e chega. Não achava errado não concordar, não se encaixar, quase sempre sobrar. Era ruim, desconfortável, às vezes desanimador. Mas errado, por quê? Pra alguém a quem o mundo todo parecia errado, seus próprios desconfortos chegavam a ser até acolhedores.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Água e Xarope

Ainda era Agosto, e a noite quente que seguiu um dia desanimador fez necessário um passeio ao McDonald's mais próximo. Em meio a tanto marasmo naquele mês com cinco segunda-feiras, busquei alguma novidade, mesmo que esta se resumisse em experimentar o novo sanduíche de frango com bacon: ridiculamente, a previsão do jantar gorduroso foi o que me deu ânimo durante todo o dia. Estavam assim meus dias... movidos não por grandes perspectivas ou otimismo, pelo contrário, naquele tempo aguentar até a noite sem me envolver em decepções ainda maiores já era uma grande vitória.
Confortei-me ao notar que o McDonald's era o único restaurante com fila na praça de alimentação do shopping. O de comida tailandesa, percebi, era o mais vazio de todos. O grande número de gente ansiando por hamburguer e batata frita, além de fazer com que eu tivesse que esperar bastante para ser atendida, me mostrou que eu não era a única a buscar consolo na comida. E nada que fosse muito saudável teria um efeito eficaz no nosso espírito Agostino.
Um bom tempo de espera depois (de fast food, só restou o nome), pude me sentar para finalmente atingir o ápice de meu dia. A batata frita, boa como sempre. Os pacotinhos de ketchup e mostarda, melados e difíceis de abrir como sempre. O lanche, ótimo, talvez fosse meu novo preferido. E então experimentei a Coca-Cola...
Alguma coisa estava terrivelmente errada com aquele refrigerante. Era aguado como toda coca de máquina, até aí tudo bem, tinha gelo o bastante... mas o gosto. Aquilo simplesmente não era coca-cola. Estava mais pra uma mistura de Novalgina, Tylenol e um pouquinho de coca só pra dar a cor. Dei mais uma mordida no lanche, comi mais uma batata e tentei experimentar a bebida de novo, quem sabe fosse só impressão.
Não era impressão, era xarope mesmo. Se a coca estava estragada, se a regulagem da máquina estava errada, não sei. Mas aquilo definitivamente não era bebível, e resolvi deixar o copo de lado. Beber durante as refeições dá barriga mesmo... E tive medo de pedir para o moço trocar o refrigerante mas acabar pegando outro igualmente decepcionante.
Talvez fosse exatamente isso que eu vinha aprendendo em Agosto. É bom entender que a coca pode ser aguada, e pode ser quente, sem gás... mas tem que ser pelo menos coca. Se não tiver o gostinho que desce pela garganta e limpa tudo por dentro, não vale a pena. Jogo fora. Bebo água, bebo nada, mas não bebo xarope.
Aceito, por exemplo, que as amizades tenham falhas, que os amigos virem a cara, que a amiga te esqueça num fim de semana. Desde que ainda exista amizade.
O amor também. Pode estar velho, desgastado, ainda assim vale a pena quando ele simplesmente ESTÁ. Mas ah, se ele resolver ficar com gosto de xarope...
Eu prefiro beber água.
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Agosto se foi, e o gosto da coca xaropada saiu da minha boca. Sei que Setembro trará coisas leves, não é ele o mês das flores? Talvez tão leves, quanto a água. Não importa. Vou dar um tempo nos refrigerantes...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Dilema

Todo dia levanta
Até que contente
Mas nunca completa
.
Alegria aparente
Camufla por dentro
A alma inquieta
.
Ama seu lugar
Carinho por tudo dali
Entretanto, quer
.
Ela quer outra coisa
está aí o problema
Outra coisa o quê?
.
É seu maior dilema.