O que tenho feito?
Fico um tanto irritada quando me perguntam. A verdade é que detesto admitir, mas não tenho feito muita coisa. Entrei na rotina de novo, a boa e velha, e confortável, já que é necessária. Aliás, tenho feito o necessário: estudo, converso, dou umas risadas, como bem, danço um pouco, assisto uns filmes, passo tempo com a família e com os amigos. Tenho sete dias, praticamente pré-programados, para fazer tudo isso e, depois, repetir. E repetir. E repetir.
Eu provavelmente não teria nada a reclamar, e quem me assiste viver diria que estou muito bem, obrigada. Mas então, de onde vem essa sensação de estar andando em círculos? A minha impressão é que tudo que eu faço não chega nem perto de tudo que eu planejo, que eu sonho. Meu maior desespero é perceber que meus sonhos, por mais simples que sejam, estão lá longe no futuro. Longe porque, não importa se me refiro ao dia seguinte ou a dez anos depois, o futuro nunca existe.
E se o futuro não existe, tudo que eu tenho é o agora. Então desespero.Porque, agora sei, vivo de expectativas. Tenho tudo de bom, mas não tudo o que eu quero. Vivo de esperar, de querer, e por enquanto não vi nada acontecer de verdade. Paciência? Terei, atenho-me à ela, mas não posso deixá-la dominar meus dias, viver de espera é poético mas não muito prático. Que adianta viver esperando e morrer paciente?
Temo perder tempo, está aí o dilema. A vida precisa de tempo pra acontecer, não é? Mas com o tempo ela também acaba.
Enfim, sempre me resta esperar, mas não de braços cruzados. Esperarei enquanto vivo o que está ao alcance, decidi agora ser feliz com o presente, e sim, antes que perguntem, ser feliz é em parte uma escolha. Talvez a sensação de andar em círculos nunca vá embora, talvez o medo de não chegar a lugar algum seja um estímulo para andarmos mais rápido. Espero que os trabalhos compensem, que os passeios agradem, que as pessoas fiquem. E, se um dia meus sonhos se realizarem, o próximo desafio será encontrar novos sonhos.
